Acostumar-se com a solidão é tão difícil quanto o contrário.
Explico: Você dividiu a vida com alguém, 2, 5, 10, 15 anos... jantares, almoços, finais de semana, planos. Uma série de coisas, e aí vamos supor que você tenha de se acostumar a não ter mais tudo isso. É dificil.
Não ter mais as ligações, as satisfações dadas, o compartilhamento dos planos, dos projetos, as reclamações - nessa hora dá uma saudade delas - as implicâncias, que agora sob o olhar da solidão, não dão mais irritação, dão uma saudade, uma imensa saudade no peito.
O lugar vago no carro, aquele sanduíche de picanha sem a compania.
A cama vazia - certamente o golpe certeiro e inquestionável de todos - sem o calor do seu abraço numa noite fria.
Toda a faxina feita no quarto ainda não é suficiente pra apagar. Pode se apagar?
Não pode.
Pode.
Pode?
Bem, alguns conseguem. São tidos como ímpar aos demais.
Bem assim, o contrário: os amigos insistindo pra sair na agenda, que o namorado quer ocupar; as prestações de contas, os desentendimentos, a balada sem avisar, a discussão, o telefone mexido. As reclamações, mesmo após as suas conversas.
A viagem convidada que agora precisa ser vista com ele.
Recados a toda hora, o desejo do outro, a liberdade (perdida?), as obrigações, a cama compartilhada no dia de calor em que ele insiste em querer te abraçar, mesmo você suando loucamente.
Tudo acaba num mesmo ciclo, que tem um elo. Uma roda infindável, onde cada um tem medo de entrar. Já se estando nela.
O medo é justificável? Não podemos ter medos?
Pra quem se acostumou a trancar o grande quarto, justamente pra afastar o sofrimento da vida, às vezes, mesmo quando se quer abrir, nem se lembra mais onde ficou a chave.
E não dá pra se arrombar a porta.

No final, o nosso medo é o mesmo:
Acostumar.
Continua...